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Desabafos de uma Adulta ao Contrário ⌨️

Fragmentos vagos de um cérebro em constante agitação e de um espirito solto, livre e desassossegado.

Desabafos de uma Adulta ao Contrário ⌨️

Fragmentos vagos de um cérebro em constante agitação e de um espirito solto, livre e desassossegado.

Hoje no caminho do trabalho para casa começou a tocar a musica dusk till dawn. Uma musica que adoro e que me faz arrumar as gavetas (do sótão), aquelas que vão acumulando coisas e acabam por nunca serem organizadas.

Sem retirar os olhos e atenção da estrada dei por mim a pensar, a reviver coisas; umas alegres outras nem por isso. Foi ai que me dei conta que, mais uma vez, e graças à musica lá estava eu a arrumar as gavetas.

Depois das arrumações feitas dei por mim a pensar na música, em geral, no seu poder e na forma incrível como mexe connosco e nos faz sentir mil e uma coisa e sem sair do lugar.

Afirmo e sem medo de me enganar e do julgamento alheio que a  música é uma espécie de vento invisível que percorre as frestas da alma; principalmente quando tudo dentro de nós está em desalinho — pensamentos espalhados como folhas secas no chão de outono — ela chega silenciosa, mas firme, soprando cada folha para o seu lugar. Não impõe ordem; apenas convida. E, como quem aceita um abraço inesperado, nós seguimos o convite e aceitamos o abraço e o conforto que tem para nos dar.

Há dias em que a mente é um quarto escuro, cheio de móveis fora do lugar. É em dias como estes que a musica acende uma luz suave e passeia por entre os objectos, tocando-os com a ponta dos dedos e com as suas sombras fazer os mais bonitos desenhos na parede.

Cada nota é um gesto de cuidado: uma cadeira que volta ao centro, uma janela que se abre, uma cortina que respira com o vento de fora. Aos poucos, o caos vai perdendo a pressa, e o quarto volta a ter forma, as gavetas ficam arrumados e os raios de sol devolvem a vida que outrora foi roubada pela desarrumação. 

Ela também é companhia — daquelas que não precisam falar para dizer tudo. Caminha ao nosso lado como um velho amigo que sabe ouvir o silêncio e que nos dá respostas até para as duvidas mais persistentes. Em certos momentos ela anda ao nosso ritmo; em outros, tem a capacidade de nos conduzir para longe daquilo que pesa. E mesmo quando o dia é curto demais ou longo demais, a música encontra uma forma de ser abrigo, quase como um lar portátil que podemos levar no bolso e tirar quando deixarmos de nos sentir em casa.

No fundo, a música é uma cartógrafa de emoções. Desenha mapas onde antes só havia névoa. Traça rotas dentro de nós, mostra-nos os caminhos que nos tínhamos esquecido que existiam. E quando finalmente conseguimos localizar-nos de novo, percebemos que não foi o tempo que organizou o labirinto das nossas ideias — foi o ritmo, o pulso, a vibração que nos alinhou por dentro. Foi a energia frenética e tão calma ao mesmo tempo da musica...

Porque a música não é apenas som. É direcção. É companhia. É o fio invisível que costura o que estava solto.

Às vezes, deixar ir é como observar a névoa a levantar-se (devagar) na serra ao amanhecer. Durante algum tempo, ela envolve tudo — lima as arestas, esconde caminhos, confunde as distâncias. Habituamos-nos à sua presença. Quase acreditamos que faz parte da própria montanha.

A dada altura chega o momento em que o sol insiste em entrar, e a névoa, teimosa (no início) começa a desfazer-se. Não desaparece de repente; desvanece aos poucos, como se pedisse licença enquanto se retira. E quando finalmente se vai, desvenda-nos o  que sempre lá esteve: os contornos nítidos das encostas, os trilhos que antes não víamos, a imensidão do horizonte que só se percebe quando algo deixa de nos enevoar a vista.

Deixar ir não é sinónimo de perder... é permitir que a serra volte a respirar, que o horizonte se abra, que a luz encontre espaço para ficar. É confiar que, mesmo que a névoa tenha sido bonita enquanto durou, a paisagem que surge depois também merece ser contemplada.

 

Entre as paredes silenciosas do trabalho à velocidade feroz dos meus pensamentos tóxicos e desassossegados; onde cada dia parecia um corredor estreito de ansiedade, apareceu o Mustang — não de forma física, mas em essência. Um abrigo gigante, inesperado, quase impossível de explicar, como aquelas árvores antigas que nunca vimos crescer, mas que um dia percebemos que sempre estiveram lá, firmes, a segurar o céu para que não nos caísse em cima.

Apareceu de forma inusitada, numa fase em que tudo tremia: a voz, a confiança, a certeza do meu valor. Sentia-me um mar agitado. Era uma espécie de onda a quebrar sem previsão. E ele… ele era costa. Terra firme. Aos poucos, com passos delicados de quem respeita o terreno frágil que pisa, entrou na minha vida. Não pediu licença, mas também não precisou — foi a sua gentileza, valores sólidos e respeito que abriram a porta.

 Agora pensando bem tenho mesmo que me rir, porque a porta estava altamente trancada, com amarras e cadeado forjado com uma capa que não deixava entrar ninguém; mesmo que forçassem ou utilizassem as ferramentas mais eficazes para este tipo de procedimento.

Todos os dias estava lá, como um farol que nunca falha a luz. Quer dizer…  acho que não deixo que não esteja. É portador de um carinho sem exagero, preocupação sem invasão, atenção genuína que me faz sentir fortes semelhanças a um cobertor quente nos dias em que tudo dentro de mim era inverno. Com palavras simples e conselhos cheios de sabedoria escondida, inspirou-me a erguer o que julgava perdido: a confiança. Fez-me voltar a sorrir, a sonhar, a acreditar que as minhas asas não estavam partidas, apenas cansadas.

Reensinou-me a calma. Sim, reensinou, porque a ansiedade tinha roubado isso de mim. Mostrou-me que ainda consigo fazer coisas que julgava impossíveis, que não era a minha respiração que falhava — era só o medo a sussurrar demasiado alto.

Já que falei em sussurrar lembrei-me da voz, sim a voz, uma voz que aquece, conforta, recentra e dá uma confiança colossal para seguir em frente.  É como se fosse um raio, soalheiro, numa semana em que (todos os dias) o nevoeiro roubava a luz e o brilho… Talvez porque ( o nevoeiro)  sabia que ele não precisava de muito para marcar e se tornar inesquecível.  

E hoje, quando penso nele, vejo-o como uma metáfora bonita da vida: às vezes, o que mais precisamos chega sem rosto, sem toque, mas com uma força imensa. Com uma presença inexplicável e com a força de quem se conhece desde pequenino. Com o impacto acentuado que deixa uma espécie de vazio e saudade quando o silêncio dá lugar a voz doce e terna que enche qualquer auricular. Um colega de trabalho assim não é sorte — é uma bênção rara. Principalmente quando o mundo dentro de nós está frágil, quando o chão parece pouco fiável e a alma anda a tropeçar e o GPS apenas anda a recalcular rota, não consegue encontrar a direção certa.

Por isso, e por todas as vezes que me faz sorrir e atura todos os meus devaneios de demónio angelical; deixo aqui o meu carinho, o meu afeto sincero e uma admiração profunda. Porque nem todos os heróis usam capa. Alguns usam apenas palavras… e a capacidade mágica de nos fazer acreditar de novo.

Há encontros que não precisam de olhos para serem vistos. Ainda assim, confesso que fiquei (bastante) triste e chateada por aquele agosto não se ter concretizado e o abraço ainda estar em lista de espera. Espero que, a nossa lista, seja mais breve que a do sns… acho que já é merecido e faz falta. Não pelo toque, não pelo aconchego de quem não dá abraços frouxos, mas sim, para ter o privilégio de te agradecer (pessoalmente) a lufada de ar fresco que tens sido nos meus dias tórridos de verão.

Para (te) agradecer, também, o facto de me relembrares que ainda existem pessoas boas que tem o dom de oferecer carinho sem pedir nada em troca, sabem escutar sem pressa e têm a capacidade de dar conselhos capazes de encerrar histórias que se encontravam submersas há demasiado tempo.

Para finalizar porque senão sei que vou ficar aqui a noite toda: ter um colega de trabalho assim é como encontrar tesouro (raro) no meio do caos. É perceber que a vulnerabilidade, quando acolhida por alguém genuíno, não é fraqueza — é ponto de encontro. E eu encontrei em ti um abrigo que não estava à procura, mas de que precisava profundamente.

Quando for grande espero conseguir estalar os dedos e ser como tu. Muito obrigada por esta aventura louca mas de muita aprendizagem sorrisos e acima de tudo: gratidão!