O abraço que se ouve e a melodia que arruma o caos
Hoje no caminho do trabalho para casa começou a tocar a musica dusk till dawn. Uma musica que adoro e que me faz arrumar as gavetas (do sótão), aquelas que vão acumulando coisas e acabam por nunca serem organizadas.
Sem retirar os olhos e atenção da estrada dei por mim a pensar, a reviver coisas; umas alegres outras nem por isso. Foi ai que me dei conta que, mais uma vez, e graças à musica lá estava eu a arrumar as gavetas.
Depois das arrumações feitas dei por mim a pensar na música, em geral, no seu poder e na forma incrível como mexe connosco e nos faz sentir mil e uma coisa e sem sair do lugar.
Afirmo e sem medo de me enganar e do julgamento alheio que a música é uma espécie de vento invisível que percorre as frestas da alma; principalmente quando tudo dentro de nós está em desalinho — pensamentos espalhados como folhas secas no chão de outono — ela chega silenciosa, mas firme, soprando cada folha para o seu lugar. Não impõe ordem; apenas convida. E, como quem aceita um abraço inesperado, nós seguimos o convite e aceitamos o abraço e o conforto que tem para nos dar.
Há dias em que a mente é um quarto escuro, cheio de móveis fora do lugar. É em dias como estes que a musica acende uma luz suave e passeia por entre os objectos, tocando-os com a ponta dos dedos e com as suas sombras fazer os mais bonitos desenhos na parede.
Cada nota é um gesto de cuidado: uma cadeira que volta ao centro, uma janela que se abre, uma cortina que respira com o vento de fora. Aos poucos, o caos vai perdendo a pressa, e o quarto volta a ter forma, as gavetas ficam arrumados e os raios de sol devolvem a vida que outrora foi roubada pela desarrumação.
Ela também é companhia — daquelas que não precisam falar para dizer tudo. Caminha ao nosso lado como um velho amigo que sabe ouvir o silêncio e que nos dá respostas até para as duvidas mais persistentes. Em certos momentos ela anda ao nosso ritmo; em outros, tem a capacidade de nos conduzir para longe daquilo que pesa. E mesmo quando o dia é curto demais ou longo demais, a música encontra uma forma de ser abrigo, quase como um lar portátil que podemos levar no bolso e tirar quando deixarmos de nos sentir em casa.
No fundo, a música é uma cartógrafa de emoções. Desenha mapas onde antes só havia névoa. Traça rotas dentro de nós, mostra-nos os caminhos que nos tínhamos esquecido que existiam. E quando finalmente conseguimos localizar-nos de novo, percebemos que não foi o tempo que organizou o labirinto das nossas ideias — foi o ritmo, o pulso, a vibração que nos alinhou por dentro. Foi a energia frenética e tão calma ao mesmo tempo da musica...
Porque a música não é apenas som. É direcção. É companhia. É o fio invisível que costura o que estava solto.





