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Desabafos de uma Adulta ao Contrário ⌨️

Fragmentos vagos de um cérebro em constante agitação e de um espirito solto, livre e desassossegado.

Desabafos de uma Adulta ao Contrário ⌨️

Fragmentos vagos de um cérebro em constante agitação e de um espirito solto, livre e desassossegado.

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Está uma tarde de Inverno bastante chuvosa, enquanto o vento tamborila nas janelas e o céu se veste de cinzento, profundo, a casa transforma-se no meu  refúgio (acolhedor) preferido. Em frente à lareira,  vejo as chamas dançar a um ritmo hipnotizaste, lançando reflexos dourados pelas paredes. Hoje são elas e os meus cães os ternos companheiros na viagem dos pensamentos e no arrumar das gavetas da mente. Enrolada nas mantas macias, sinto o conforto a envolver -me o corpo, como se o calor tivesse nas minhas próprias mãos.

O estalar da lenha mistura-se com o som da chuva que teima em cair lá fora. Criando uma melodia tranquila que me  convida a desacelerar.

Na mão, um copo de vinho, cuja a cor rica me lembra as tardes longas e serenas nas encostas do Douro. Cada gole aquece, suavemente, a minha alma e desperta memórias adormecidas; algumas boas outras nem por isso, umas cheias de alegria e sorrisos e as ultimas carregadas de nostalgia e saudade. 

Os pensamentos vagueiam, libertos de pressas ou obrigações. Aproveito estas pausas no caos do dia-a-dia para  deambular por tudo aquilo que, normalmente, não tenho tempo; vou das  recordações antigas aos sonhos por cumprir e repouso nos pequenos momentos que ficaram guardados em silêncio — tudo encontra espaço nestes dias. Que para muitos se tornam aborrecidos, mas,  para mim relaxantes e muito reveladores. É um daqueles instantes raros em que o mundo parece suspenso, e o simples ato de estar presente se torna suficiente.

Lá fora chove sem tréguas. Aqui dentro, a alma descansa, o coração sossega e o corpo entra em modo de repouso. 

Durante dois anos, o Pedro e a Luísa caminharam lado a lado… mas à distância. Nunca se tinham visto pessoalmente (o destino e o curso da vida estava teimoso) embora as conversas fossem intermináveis, as mensagens trocadas, umas a horas ditas normais outras nem por isso,  e os desabafos partilhados tivessem criado entre ambos uma familiaridade quase impossível de explicar. Eram presença constante na vida uma da outro, mesmo sem nunca terem estado no mesmo lugar. 

Era como se já soubessem tudo um do outro. Havia carinho, companheirismo e uma amizade um bocadinho difícil de explicar, isto porque eram ambos muito tímidos. Mas nesta aventura não havia espaço para a timidez... Os sorrisos e a vontade de não deixar ir ocupavam o espaço e o tempo todo. 

Entre tentativas falhadas, planos adiados e circunstâncias da vida que teimavam em não alinhar, o tão esperado encontro. Escapava (sempre) por entre os dedos. Mas o tempo, com a sua forma paciente de organizar aquilo que o coração guarda, acabou por lhes oferecer finalmente o momento certo. 

Quando se encontraram, foi como se o mundo ficasse alguns segundos em silêncio. Não houve estranheza, nem receio. Houve uma gargalhada forte, genuína e muito envergonhada. Houve um abraço sem pressa e sem segundas intenções. Houve o real e o toque; deixaram as aparências, o perfeito e o politicamente correcto e deram prioridade ao reconhecimento (tranquilo) de quem já se conhece mesmo antes  de se olhar nos olhos.

Passaram o dia a caminhar pelas ruas antigas, onde as casas contam histórias, as varandas (mais velhas) guardam os segredos de quem já ali viveu. Passaram o dia  a conversar como quem põe as memórias em ordem, a trocar abraços demorados; os abraços que reflectia toda a admiração, gratidão e carinho que sentiam um pelo outro. O dia era de  sorrisos que pareciam guardar anos de histórias que (ainda) não tinham vivido juntos.

Foi um dia simples — mas cheio. Um daqueles dias que ficam guardados sem necessidade de fotografias, porque a alma se encarrega de guardar cada detalhe.

E, no final, cada um seguiu o seu caminho. Sem dramatismos, sem promessas forçadas, apenas com a certeza de que, às vezes, o encontro é suficiente para dar sentido à distância que anteriormente os abraçou. E que, independentemente de onde a vida os levasse, aquele dia seria sempre um lugar ao qual poderiam regressar em pensamento. Um lugar seguro, feliz, acima de tudo um lugar que abriga e aquece nos dias gelados que se aproximam anunciados pela chegada do inverno. 

Vivemos num mundo que nos empurra e nos motiva, constantemente, a correr mais, produzir mais e ser mais. Compreendo isto tudo... Mas afinal o que é, mesmo, isto de ser mais? será que para corresponder a todas estas expectativas (do mundo) não acabamos por ser menos?

Tenho cada vez mais a certeza de que, muitas vezes, aquilo que realmente transforma a nossa vida não são as grandes decisões — são os pequenos hábitos;  aqueles gestos quase invisíveis que, somados, criam impacto real. Fazem-nos rir, trazem paz ao longo do dia e quando ele acaba dormimos com a certeza de que ficou tudo feito... bem feito. 

Hoje convido-vos a pensar nisto; quantas vezes já tentamos mudar tudo de uma só vez? Uma rotina nova, perfeita, um plano impecável e totalmente infalível, a motivação no máximo e, depois de passados três dias, tudo volta ao normal. Não é falta de força de vontade; é falta de estratégia.

Para mim a verdade é simples: A verdadeira mudança e aquela que veio para ficar nasce das coisas pequenas. e para vocês?

Devem estar todos a questionar-se: - Mas porquê, isso de começar pequeno?

Porque o pequeno é possível. Não assusta. Não exige horas, nem mundos e fundos, nem um “novo eu” perfeito. Exige apenas consistência — e isso está ao teu alcance. As decisões são equilibradas e duradouras.  

Ora vejamos vejamos se eu estou assim tão errada:

- Um copo de água ao acordar

- Dois minutos de alongamentos

- 5 páginas de leitura

- Um breve momento para agradecer algo ou a presença de alguém

- Um abraço sempre que alguém nos parece desamparado.

 São pequenos gestos, que, a longo prazo e feito de forma consciente vão gerar grandes resultados.  E assim, hábito após hábito, mudança após mudança e dia após dia  começamos a construir uma versão melhor de nós, sem peso, sem pressão e sem expectativas irreais.

Se fizermos algo pequeno todos os dias, daqui a um mês já não vamos nem podemos considerar-nos da mesma forma. Daqui a um ano, iremos reconhecer-nos pelas melhores razões. E o mais incrível? Raramente percebemos a transformação enquanto ela acontece — apenas os resultados finais. 

Outra coisa que eu acho incrível é que o que é pequeno para nós e não exige grande esforço para os outros pode ser gigante e tornar o seu dia, ou que sabe, até, a sua vida mais feliz, mais bonita e mais leve. 

 Assim sendo e para não exigir demasiado de você na leitura deste desabafo louco; Vamos escolher um hábito simples. Algo que caiba no nosso dia sem esforço; vamos fazer disso um compromisso leve, quase simbólico, mas diário.  Acredito, seriamente, que daqui a pouco tempo, esse gesto vai abrir portas a outros e transformar o nosso ritmo (louco) num ritmo harmonizo e repleto das coisas que realmente importam. 

Afinal, a mudança começa sempre num passo — pequeno, mas firme. Invisível nos primeiros momentos mas notável ao longo dos tempos. 

O Porto não é apenas uma cidade — é uma alma antiga que aprendeu a vestir o tempo com dignidade, magia e convicção. Quem caminha pelas suas ruas sente que cada pedra guarda um segredo, cada varanda, virada para o douro, observa o mundo e a magia da ribeira que nos relembra todas as promessas que já foram feitas por ali, todos os segredos engolidos pelo barulho do metro (na ponte D. Luís) e todos os casais de namorados e amigos que celebram o amor, a amizade e a vida acompanhados pela beleza do rio e pelo barulho dos turistas que preenchem a tela que é esta cidade; cada esquina conta uma história que ninguém escreveu, mas todos conhecem.

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O Porto é um coração (pulsaste) dividido entre o mar e o rio, como alguém que ama duas liberdades ao mesmo tempo. É liberdade, carinho e vida de quem sente o que é e não se envergonha disso. 

O Douro, com o seu brilho, parece um espelho onde a cidade se mira, enaltece, confirma e por fim reconhece toda a sua beleza. E as pontes… as pontes... as pontes  são como braços estendidos, unindo as margens, pessoas e destinos — metáforas de encontros e desencontros que o tempo insiste em trazer até nós. 

Perco-me nas suas ruelas antigas; como se estivesse a sonhar enquanto passeio. O Porto respira como um velho poeta: às vezes melancólico, às vezes apaixonado, sempre profundo e marcante.

É uma cidade que sabe ser silêncio e tranquilidade  quando o sol ainda não acordou, e música quando o dia se deita sobre os telhados de telha laranja. O casario parece um coro de vozes antigas, alinhadas como páginas de um livro que o vento gosta de folhear devagar. 

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O Porto tem a alma de um artista. adorna-se de neblina para criar mistério, de sol para dourar as fachadas, de azul para (nos) lembrar que o infinito começa ali, onde as gaivotas riscam o céu com a sua caligrafia inquieta. E quando a noite chega; a cidade enche-se de brilho, como se tivesse estrelas próprias —  as pessoas formam pequenas constelações (humanas) a cintilar  nas tascas, nos bares, nos caminhos iluminados por memórias líquidas embebidas pelo vinho ou pelos finos.  

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Quem conhece o Porto sabe: ele não se visita, sente-se. É como se ele nos envolvesse num abraço e nos fizesse sentir que sempre fizemos parte dele. 
Porque o Porto é um beijo e uma caricia  firme, daqueles que não se esquecem.
É uma voz rouca, com um sotaque doce e meigo que canta o fado e os sonhos,  ao mesmo tempo.
É um porto seguro — não por acaso — onde cada pessoa encontra um pouco de si no reflexo do rio e planeia o percurso dos , seus, sonhos enquanto sobe as escadas para chegar ao topo dos clérigos. 

E quando finalmente partimos, levamos a certeza de que não deixámos apenas uma cidade para trás — deixámos um sentimento adormecido, que acordará sempre que alguém disser:  “ Vamos voltar ao Porto.”

Porque o Porto não é um lugar. Melhor, não é um lugar qualquer... é um refugio onde se criam memórias, se recuperam as energias, cumprem promessas  e se volta a ser feliz novamente. 

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23 Nov, 2025

A voz que acalma

A voz tem uma magia única, quase invisível, que nos envolve sem pedirmos nada em troca. Há timbres que parecem acariciar o silêncio, palavras que pousam suavemente no ar e trazem consigo um sossego difícil de explicar. Quando alguém fala com calma, com presença, com verdade, é como se o mundo abrisse um espaço interior onde tudo finalmente assenta. Isto acontece quando as pessoas falam com a alma, com os valores e com o coração. E as coisas todas não ficam mais bonitas com o coração?

É nessa voz que muitas vezes encontramos paz — não, só,  pelo que dizem, mas pela forma como vibra dentro de nós. É um conforto antigo, quase instintivo, que nos lembra que não estamos sozinhos. A voz certa, no momento certo, pode ser um abrigo, um colo, uma brisa que acalma o coração.

Num mundo cheio de ruído e agitação esta voz pode ser o desconectar e o sossego dos dias corrido em busca de cumprir com  todos os papeis sociais, sem nunca deixar nada para trás.

Uma musica que assenta que nem uma luva neste devaneio desassossegado, talvez, falte a voz...

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A empatia é uma das forças humanas mais silenciosas, também, das mais revolucionárias.
Ela mostra-se na capacidade de ver o outro para além das palavras, de sentir o que ele sente, de compreender o que não foi dito. Manifesta-se na capacidade de perguntar (primeiro)  o que cada um leva na bagagem antes de qualquer julgamento.

Num mundo acelerado, onde muitos correm sem realmente se encontrarem, a empatia funciona como um ponto de pausa — um lugar onde a humanidade se reencontra e os egos são moderados e ficam em "modo de hibernação".

Quando alguém é verdadeiramente visto e ouvido, algo dentro dessa pessoa se reorganiza. A empatia não resolve todos os problemas, mas cria o espaço para a  cura poder (finalmente) entrar. É como uma mão que se estende e exclama: “Não estás sozinho/a. Eu estou aqui contigo!”

A empatia pode revolucionar e transformar vidas;  convida-nos a quebrar muros e a despir preconceitos. Quando deixamos cair as defesas e abrimos lugar para o outro, algo profundo muda: o conflito perde força, o medo diminui e nasce a possibilidade de conexão genuína. 

Conseguimos ver para além das marcas, da cor do cabelo, da profissão ou da forma física; conseguimos abrir um caminho para o outro poder passar, ao seu tempo, com a sua bagagem e com os seus escudos. Deixamos, sem nos darmos contar cair a inveja e a angustia de sentir que o outro tem sempre mais e melhor que nós... Conseguimos dar a mão sem pedir o que quer que seja, conseguimos ser moleta e alicerce sem qualquer recompensa. Às vezes o sorriso e a leveza do outro é o maior e melhor prémio de todos. Mesmo!  Por isso costumo dizer;

A conexão é, inumeras vezes, o que salva. E posso dizer que em vários momentos da minha vida foi mesmo ela que me salvou!

No quotidiano, a empatia prenuncia-se em pequenos gestos — um olhar atencioso, uma palavra de compreensão, um silêncio acolhedor.  Pois é... parecem gestos simples e insignificantes, mas não são...Por vezes são a corda e a escada para sair do fundo do poço.

Às vezes, basta que alguém se sinta compreendido para ganhar coragem, para reencontrar esperança, para recuperar a confiança que pensava perdida.

Além de curar os outros, tenho para mim, que a empatia transforma também quem a pratica. Quanto mais tentamos compreender o mundo visto com os olhos dos outros, mais nós crescemos e mais sereno e gigantesco fica o nosso. Quando paramos de dizer a palavra só porque está na moda e a colocamos mesmo em prática; deixamos de perder tempo com as migalhas e passamos a valorizar e a enaltecer o que realmente importa. O que é nosso, os que necessitam de nós. Deixamos ir embora a amargura e ódio e damos lugar ao amor e aos sonhos. 

Tornamos-nos mais humanos, mais conscientes, mais capazes de amar. E, num ciclo natural, aquilo que damos regressa para nós e por vezes de formas inesperadas, loucas mas sempre em forma de recompensa. Por isso é que a frase que mais gosto de usar é: obrigada vida! Tens sido muito simpática e generosa comigo. Tens a amabilidade de colocar na minha vida pessoas lindas, com quem aprendo, cresço e acima de tudo sou muito feliz. E sempre por acasos ou coincidências...  elas chegam até mim nos momentos mais cruciais e sempre como trampolim para ser mais e melhor. 

Empatia é ponte, é cura, é mudança.
E, quando praticada com sinceridade, tem o poder de tornar a vida – a nossa e a dos outros – mais leve, mais verdadeira e profundamente mais bela.

A imagem inicial é uma metáfora prefeita para alguém que que espelha na perfeição esta arma tão poderosas, que poucos se usam dela, a empatia. 

O relógio marcava as 23h. A terça tinha chegado ao fim. Pelo menos, era isso que a agenda ditava; já minha mente, essa, recusava-se a descansar. Estava numa azáfama tão intensa que fazia balançar o copo de brandy que tomei por companheiro.

A noite está fria, mas serena. O céu, coberto de estrelas, parecia observar em silêncio a pressa dos carros (lá em baixo); cada um a correr para o seu destino, para chegar a casa o quanto antes, fechar a porta e dar o dia por terminado.

Eu, sentada no puff, enfiada na manta, sentia-me tudo menos no fim de um dia. Algo em mim ainda estava a começar. Ás vezes pergunto-me se uma mente inquieta  nunca apaga a luz e chega ao fim do dia...

Peguei no telemóvel. Abri as mensagens. E hesitei.
O polegar ficou suspenso sobre o ecrã, como se uma pressão (descontrolada) pudesse mudar tudo — ou desfazer o que naquele momento me parecia o mundo.

Não sabia se estava certo ou errado, o que me preparava para fazer.  Se devia dizer algo ou se o silêncio a escolha mais acertada e o abrigo mais seguro.
Quer dizer metade de mim sabia exactamente o que queria fazer. A outra metade gritava para eu ter juízo; para esquecer, apagar a luz e dar o dia por terminado. 

Respirei fundo. O brandy queimou-me a garganta no último gole, como se me lembrasse que a vida raramente é suave quando mais precisamos que seja. Talvez ela tenha a necessidade de nos magoar momentaneamente para depois trazer até nós as melhores curas e aquelas que não tragam reincidências... Ainda assim, as vezes essa cura podia estar no som do desligar o interruptor...

E então encarei a verdade:
Eu não hesitava por falta de palavras.
Hesitava por medo do que viria depois delas.

Porque às vezes, enviar uma mensagem não é só enviar uma mensagem — é abrir portas que prometemos a nós mesmos manter fechadas. 

Mas naquela noite, com o mundo a adormecer e a minha mente a desperdiçar horas de descanso, perguntei-me:
-Quantas vezes mais vou ficar presa entre o que sinto e o que finjo não sentir?

 Vencida pelo cansaço do dia, o dedo voltou a aproximar-se do ecrã.
O coração acelerou, como se soubesse o que eu estava prestes a decidir. Como se ele me quisesse mostrar que  o céu, até então, estava calmo ia ficar zangado comigo e fazer muito barulho.

E, num sussurro quase imperceptível, admiti para mim mesma:
Talvez o que me assusta não seja o que vou escrever... mas a possibilidade de, desta vez, receber uma resposta.