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Desabafos de uma Adulta ao Contrário ⌨️

Fragmentos vagos de um cérebro em constante agitação e de um espirito solto, livre e desassossegado.

Desabafos de uma Adulta ao Contrário ⌨️

Fragmentos vagos de um cérebro em constante agitação e de um espirito solto, livre e desassossegado.

 

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A pastelaria da esquina era ponto de encontro para muitos, mas para ela era apenas um refúgio silencioso entre reuniões. Patrícia trabalhava como restauradora de livros antigos — um ofício quase oculto na correria da cidade. Era ali que, todos os dias, mergulhava nos silêncios dos séculos passados, entre páginas frágeis e o cheiro de papel envelhecido.

Ele, por outro lado, parecia andar sempre a correr; Tanto estava a chegar como a sair de algum lugar. João trabalhava para uma empresa de logística, dessas que nunca param, mesmo aos domingos. As folhas de cálculos, tabelas, os horários apertados e as entregas faziam parte de uma rotina exacta, quase matemática.

Não se conheceram por acaso, mas também não foi intencional. A primeira troca de palavras aconteceu por conta de uma confusão nos pedidos — dois cafés pretos, um com açúcar, um sem. Patrícia pegou o copo errado. João sorriu, mas não fez nenhum reparo. Só notou quando o gosto doce conquistou o paladar. “Está tudo bem”, disse ele, sorrindo com os olhos. Não trocaram mais palavras, gestos ou manifestações de afecto que fizessem adivinhar o que se segue.

De seguida vieram os acenos tímidos. Um "bom dia" ocasional, um "a cadeira está livre?" dito com cuidado e acompanhado de alguma vergonha e timidez na voz. Não trocavam confidências, mas havia uma familiaridade que crescia no silêncio (confortável) entre um gole de café e o som dos dedos da Patrícia folheando as  páginas dos seus próximos pacientes. Sim, era assim, que ela olhava para os livros que restaurava. Antes de começar fazia um diagnóstico detalhado. Ela achava que eles, também, precisavam de uma ficha clínica. Às vezes, ela observava-o (derretida) a  resolver tudo através do telemóvel; como se tivesse a capacidade de controlar o movimento de um mundo que nunca desacelerava.

Patrícia não sabia, exactamente, o que a fazia contemplar tanto o João. Talvez fosse o contraste entre as suas vidas, ou o modo como ele olhava para o relógio e depois para o céu, como se calculasse se o tempo passaria mais devagar se ele lhe pedisse. Já o João achava curioso o modo como ela parecia isenta de pressa. A jovem restaurava livros com a paciência de quem sabe que nem tudo pode ser corrigido de uma vez.

Nunca falaram sobre as profissões que tinham. Era como se aquilo que importava estivesse naquele tempo... entre compromissos, onde nada era urgente.

Naquela sexta-feira chuvosa, quando ele se esqueceu da pasta na cadeira ao lado da dela, Patrícia hesitou antes de o chamar. Observou por um segundo a etiqueta com o nome dele. Foi quando ela sorriu, pela primeira vez, com um ar de descoberta. João voltou (apressado) e agradeceu com um “acabaste de salvar o meu dia”. Talvez a forma como deixou sair aquelas palavras fosse mais sincera do que pedia o momento.

Ela respondeu com um simples “às vezes, as coisas perdem-se para que possam ser encontradas de outra forma”.

E foi assim que tudo começou — sem datas, sem denominações, sem expectativas e sem promessas. Apenas com uma pasta esquecida, um café errado e um espaço partilhado pelos dois. Que, aos poucos, deixava de ser só acaso.