As Lembranças

Caminho pela rua sem querer abrandar o passo. Segue ao compasso da minha mente.
Contemplo as velhinhas (à janela) a saudar aqueles que passam e que, de alguma forma, lhes fazem companhia e trazem um bocadinho de cor aos seus dias; Desço mais um bocadinho e chego ao pé dos garotos que, assim que me veem, me atiram a bola e me obrigam; a ter que dar um chuto para que ela chegue novamente até eles. Digo bom dia, com um sorriso rasgado, e vou descendo mais um bocadinho até que chego ás escadas do tio José Marques (nunca só José), onde estão os amigos infância (ainda jovens) apenas com algumas cicatrizes deixadas pelo tempo... sentados a jogar à sueca. Sem nunca dizer uma palavra. E ai de quem o faça! dizem eles que a sueca é um jogo de mudos. Dou a salvação e continuo a descer a rua da minha aldeia e a saborear as memórias (tão felizes) da minha infância e do tempo passado com os meus avós.
Chego finalmente ao sítio que me fez iniciar aquela viagem. Ao tanque da aldeia! Adorava ir para lá, ficar sentada a mexer na água e a pensar nos dilemas típicos daquela tenra idade.
Foi o que fiz agora, já adulta. Descalcei-me, sentei-me na pedra comecei a brincar na agua e deixei-me levar.
Foi nesse momento que veio até mim as memorias da minha avó, naquele tanque, a lavar os cobertores para que não estragassem a máquina. A memória do sorriso dela enquanto me atirava umas gotas de água porque sabia que eu gostava; a lembrança do meu avô no terreno ao lado numa azafama constante para que nunca faltassem os legumes frescos. Entre outras coisas que me enchem o coração.
Senti o perfume deles, o abraço deles e ouvi os seus sorrisos enquanto diziam que gostavam comigo. Deixei cair uma lágrima. Era a gotinha das memórias felizes, das histórias que ficam para transmitir aos filhos da importância das raízes, do amor dos avós e de toda a sua sabedoria e companheirismo.
Era a gotinha das saudades, da vontade de abraçar novamente e de voltar a ter o conforto e o aconchego das ruas e dos sítios de antigamente.

Bom dia !